quarta-feira, 27 de abril de 2011

O Sonho de Sally

As palavras são símbolos, imagens… Umas causam alegrias e risos, fazem bater mais forte o coração e deixam-nos curiosos. Outras provocam tristezas, lágrimas e dúvidas.
As palavras escondem histórias…

Lê o pequeno, mas fantástico, conto que te apresento. Depois, deixa a tua imaginação voar com as palavras e escreve a história que elas escondem, uma história que nos emocione e nos faça sonhar!
Em alternativa, se preferires, escolhe uma palavra do conto e elabora um texto, em prosa ou em verso, sobre o valor dessa palavra para ti.
Em qualquer situação, não te esqueças de explorar os sentidos conotativos das palavras, a expressividade dos recursos (pontuação, adjectivação, escolha vocabular, figuras de estilo) e de rever cuidadosamente o texto no final.
Boa leitura e bom trabalho!



O Sonho de Sally


Esta história é o sonho de uma menina inglesa com quem vivi durante alguns anos em Inglaterra. Sonho tão lindo que prometi a mim mesma contá-lo aos meus amigos. A menina chamava-se Sarah, mas lá em casa rodos a tratavam por Sally. Costume, aliás, entre os ingleses, darem aos nomes das pessoas e principalmente aos dos jovens, um diminutivo. Assim Catherine, que em português é Catarina, chamam Cath, e Anthony, em português António, Tony. Por isso eu dei a este conto o título «O sonho de Sally».
Antes, porém, de começar a falar do sonho gostaria de apresentar essa mocinha.

Conforme disse, vivi com ela em Inglaterra, nos arredores de Londres. Uma casa de compridos corredores e grandes salas, rodeada de jardins, mais um pomar, mais um bosque. Casa, portanto, dos pais da pequena Sarah. Ela, contudo, poucas vezes via os pais. A mãe estava doente num sanatório na Suíça, e o pai, sempre muito ocupado com negócios, passava os dias de Londres para Paris.
No casarão éramos, pois, Sarah e eu (além da mulher do jardineiro que cozinhava e tratava da roupa), e de noite ficávamos só as duas e o senhor John, antigo mordomo que servia à mesa e polia os móveis.
O senhor John, isto é, João, ouvia mal, pelo que, se o telefone tocava a meio da noite, retinindo na casa vazia, tínhamos nós de o atender. O mesmo acontecendo quando o cão ladrava no pátio. O senhor John, assim surdo e velho, com os seus aposentos ao fundo da casa, ao lado da cocheira, não nos fazia companhia alguma.
No Inverno, se a neve andava no ar, Joe, o cão de pêlo cor de mel, despertava-nos com lastimosos latidos. O pobre animal afligia-se com a neve, não por causa do frio - na garagem o seu ninho era agasalhado, forrado de cobertores -, mas, segundo parece, por causa do ruído monótono e triste dos flocos de gelo a tombar no pátio de lousa.
Sally, que tinha dez anos, era, sem dúvida, uma menina corajosa. Nunca a ouvi falar em medo. Pelo contrário, gostava de percorrer comigo o jardim, de noite, à procura de grilos, na Primavera. E saía, antes de mim, para o pátio, no pino do Inverno, para acalmar o cachorro Joe nas suas crises nocturnas de terror.
Da cidade vinham todos os dias professores para dar a Sarah lições em casa. A minha amiguinha tinha uma doença nas pernas que a obrigava a caminhar de canadianas, e não a deixava ir à escola como as outras meninas. Mas nem por isso ela era triste. De modo nenhum. O seu riso ecoava pelas salas e pelos jardins e, como os desportos lhe eram difíceis, devido à doença, distraía-se com jogos de mesa, com livros, a ouvir música, a conversar comigo.
Também televisão. Nesse tempo ainda em Portugal não havia televisão. Mas em Inglaterra, sim. Víamos ballet, teatro, cinema, variedades.
Ambas, contudo, preferíamos leitura, jogos, música, passeios a cavalo. Sally montava um pónei tão manso e tão inteligente que, durante os passeios, voltando a cabeça para trás com as crinas a esvoaçar, lambia amorosamente as pernas da sua dona.
Aos fins-de-semana fazíamos piqueniques na mata. E, caso o pai aparecesse, íamos a Londres jantar os três.
A mata, toda verde, com ramos das árvores a tocar o chão, tinha qualquer coisa de misterioso. E Sally, impressionada, chagando o seu pónei ao meu, segredava-me:
- Como gostava de sonhar uma noite com isto!
Enfim, boa aquela vida no campo, na mansão solitária de corredores compridos e salões desertos, pátios e jardins. Encantadores os passeios no bosque. Confortáveis os serões, à lareira, a estudarmos, ela e eu, a lermos, a tomarmos chá com bolo de ameixas.
Melhor que tudo, ainda, o espírito de Sarah, as suas fantasias, os seus olhos luminosos na linda cabeça de cabelos louros.
Mas vamos agora ao sonho.
Foi numa manhã morna de domingo, após uma visita pela aldeia no carrinho de cavalos guiado pelo velho John, que ela me confidenciou:
- Sonhei esta noite com a mata ... Com a mata e com o jardim. Havia flores, árvores, plantas selvagens, bichos. E todos falavam. Acredite, todos falavam!
Eu acreditei. Na minha casa, em Braga, quando era criança, sempre tinha imaginado que as coisas viviam de noite, enquanto a gente dormia. Que as mesas andavam, os retratos desciam das paredes, os espelhos abriam as portas dos seus palácios de cristal. Pedi-lhe, pois, cheia de curiosidade:
- Conta-me! Como deve ter sido bonito!
E ela contou-me.

Numa noite de luar, enquanto no meu quarto eu dormia profundamente, a Sally, que não tinha sono, saiu para o jardim. Tudo isto a sonhar, claro. Tão a sonhar que não lhe foram necessárias as canadianas. Caminhava livremente, saltava, corria, voava quase. E ao sentir-se assim leve e forte de pernas, a alegria dela foi tamanha que desatou a percorrer os canteiros, um por um, meteu-se pelo bosque dentro, chegou ao rio.
Mas o encantamento começou logo no jardim.

No canteiro maior, uma rosa branca conversava com um lírio roxo:
- Que pena tu chorares tinta! - disse a rosa.
- O quê? Eu chorar tinta?
- Sim. Tenho visto. Quando vocês murcham, pingam toda a terra de lágrimas roxas. E já ouvi o jardineiro, de mãos tingidas, a resmungar: «Que flores estas! Mais pareço agora um menino da escola depois de escrevinhar a cópia!»
- Bem, eu ainda não murchei – respondeu o lírio -, mas também sei que as nossas pétalas servem para pintar ovos de Páscoa ... E, se formos a ver, que utilidade têm as rosas depois de murchas?
- Ora, para perfume, para chá, para guardar entre as folhas dos livros ...
Mais adiante, um malmequer perdia as pétalas por amor a uma peónia: «Mal-me-quer, bem-mequer, mal-me-quer, bem-me-quer ... »
A peónia, que é vermelha, talvez pela claridade da Lua, ou maravilhada perante a paixão do malmequer, perdera a cor.
Ao fim, todo esfolhado de amor, já sem uma única pétala, o pobre do malmequer viu-se escarnecido por um botão-de-oiro:
- Olhai, irmãos, está ali um primo! Ele que tem um botão mas não de oiro como o nosso, só uma imitação, coitado!
A peónia empalidecera mais.
De um buraquinho, junto da glicínia, surgiu, de repente, uma toupeira. Ao luar, o seu casaco de pelúcia preta apresentava reflexos de aço.
As flores calaram-se.
Um sapo avançou. Caminhava aos saltinhos e fazia tap-tap a cada passada. Os dois bichos cumprimentaram-se como se fossem pessoas da sociedade. Iam visitar o ouriço-cacheiro à sua casa do bosque. E iam passar pelo chalé do rato que era no tronco esburacado de um castanheiro. Sarah seguiu-os.
Àquela hora, a floresta, de tão bela, parecia medonha. O luaceiro que escorria das folhas das árvores, alagando o chão musgoso, lembrava uma cascata de vidro. O trilo dos grilos, o pio das aves noctívagas, os uivos, os guichos, os zumbidos, os rastejas, eram a música mais exótica, mais selvagem e também a mais pura que Sally alguma vez ouvira.
O sapo, a toupeira e o rato andavam à sua frente, desembaraçados. Quanto a ela própria era como se não pusesse os pés no chão. Não havia covas, pedras, raizeiros a tolher-lhe o passo. As suas pernas caminhavam seguras, elegantes, elásticas, como as de uma gazela.
Súbito, uma conversa num choupo fê-Ia parar. A árvore falava com um melro:
- No bom tempo, vens ter comigo, mas no Inverno fico sozinho. Não és meu amigo, não.
- Com certeza! - exclamou o pássaro.
- Que abrigo me darias tu na estação fria? O Outono a chegar e tu a despires-te, o teu corpo a esfriar, a ficar sem seiva ... Afinal não passas de um fantasma, de braços erguidos para o céu, cor da terra, cor da morte!
- Mas nem por isso deixas de me procurar na Primavera! Então cantas a minha folhagem prateada, a agilidade dos meus membros lisos, a minha cabeça alta ...
- Claro! Na Primavera tu és a melhor das árvores! E não julgues que lá longe te esqueço. É só o frio que me obriga a ocupar outras árvores com ramagem.
Ao pé do rio, os salgueiros, românticos, beijavam a água que sussurrava, carinhosa, cantando assim:
Durante o Inverno sois guerreiros de varas de fogo,
de lanças de oiro a debruar o rio.
Guardais nos braços nus todo o sol de Verão!
No tempo quente, rendilhados os teus ramos,
Um conforto debaixo das vossas copas!
Os salgueiros inclinavam-se mais, orgulhosos, inteiros, na corrente.
A água ficava toda verde.
Olhando à volta, Sarah viu que se tinha perdido do sapo, da toupeira e do rato. Àquela hora os três bichos deviam estar a tomar chá na casa do ouriço-cacheiro.
Tornou para trás a minha amiguinha Sally.
O aroma das mimosas de tão forte entontecia-a. Eram não só as mimosas como as tílias, a madre-silva, os cedros, o loureiro-régio.
Sarah sentia-se embriagada de perfumes. Estava cansada também. Estendeu-se no solo, numa cama de fetos.
Uma cobra pequenina, cor de cinza, assustou-se, largou a camisa, fez rir a menina que a agarrou, trémula, lhe perguntou se era ali o Paraíso.
Havia maçãs bravas pelo chão.
Sally fechou os olhos, pensou nas suas pernas sãs, na pureza da noite, no milagre das plantas e dos bichos.
Sim, ali tinha de ser o Paraíso.
E acordou.





Maria Ondina Braga


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